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Florest [by: carlafmelo]

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Florest [by: carlafmelo]

Mensagem  carlafmelo em Sex Abr 01, 2011 10:38 am

Aqui vai um texto para um concurso literário que está a decorrer na minha escola e noutras escolas do meu distrito.
Espero que apreciem.


A floresta é um mundo para além daquele que conhecemos. É uma história, sentimentos, uma preciosidade e nós nem sempre temos a capacidade de lhe dar o devido valor. Usamo-la para todos os nossos interesses, nunca dando importância ao que representa e sem pensar nas vidas que destruímos. Pois é mesmo assim, a floresta representa uma vida!

Abri os olhos. Olhando o céu, vi que ele estava coberto de nuvens. O Sol não brilhava mas o ambiente estava seco, apenas com uma leve e passageira brisa.
Levantei-me e apenas então percebi que estava descalça e de vestido branco. A erva era macia e delicada, provocando-me algumas cócegas enquanto caminhava. O silêncio que emanava daquela floresta era acolhedor. As árvores cobertas de ramagem verdes e altas com troncos grossos atravessavam-se no meu caminho. O chão coberto de erva e flores selvagens de uma beleza cuidada enfeitavam tudo a seu redor. Eu não queria pisá-las e ia aos saltinhos vagueando por um sítio desconhecido, sem me importar por onde andava. Aquela floresta transmitia-me uma enorme segurança e eu não tinha medo. Não tinha medo dos répteis que por mim passavam e dos supostos animais selvagens que, tal como eu, por ali deambulavam. Só queria encontrar algo, embora ainda não soubesse o quê.
Olhei à minha volta, tentando encontrar a razão da minha presença neste sítio. Nada me despertou atenção e eu acabei deslumbrada por todo o ambiente que me rodeava. Aquela floresta - a minha floresta - era fantástica.
Quando, deitada no chão de olhos fechados me concentrava em ouvir, um som maravilhoso de água a correr chamou-me a atenção e espicaçou a minha genuína curiosidade. Eu sempre fora assim; desde criança que sempre quisera saber tudo, ver tudo, mexer em tudo. Sempre fui vivaça e queria sempre aprender mais e mais, observar qualquer coisa nova. Eu era assim. Apaixonada por tudo aquilo que o mundo e a vida me ofereciam. Apaixonada pela natureza, pelas nossas origens.
Corri, encantada com aquele doce som que me prometia uma paisagem serena e calma, perfeita para ler, escrever ou até pintar um quadro.
Ao chegar perto daquele pequeno riacho, escondido naquela floresta viva, sorri. Nada melhor do que receber tranquilidade no meio da natureza. Sentei-me lentamente no chão, mergulhando os pés dentro de água, saboreando a frescura da corrente e observando os pequenos peixes que nadando, estariam tão felizes quanto eu.
De repente, senti alguém sentar-se a meu lado, mas ao início não liguei. Estava tão embrenhada naquele meio que nem queria saber o que poderia aparecer ou o que me podia acontecer.
A pessoa a meu lado suspirou, chamando a atenção e eu de cara virada para a água sorri e murmurei:
- A paisagem aqui é tão linda, porque suspiras desse modo tão enfadonho?
- Provavelmente, porque gostava que me olhasses – Respondeu prontamente alguém que possuía uma voz parecida com a minha.
Aquela resposta com um timbre tão parecido com o meu fez-me olhar, finalmente, para quem se encontrava a meu lado. E quando finalmente percebi, fiquei em choque.
A pessoa que estava a meu lado era eu! Quer dizer, não eu, mas alguém igual a mim. Os longos cabelos negros, espessos e fortes, a pele suave e morena, os curiosos olhos verdes e aquela covinha no queixo que tanto me era familiar. Ela era eu! Mas como era aquilo possível? Tinha de haver alguma explicação lógica para aquela situação. Não podia aparecer assim alguém que era uma cópia exacta de mim. Era irreal.
A rapariga continuava à espera de uma resposta minha, e olhava-me de braços cruzados. Ela parecia bastante normal, como se para ela aquilo fosse o mais natural e que tudo estava a correr bem. Optimista, muito optimista! Parecia que ela já sabia que eu existia, como se me tivesse seguido e estivesse apenas à espera do momento mais oportuno para se mostrar. Era estranho, mas eu começava agora a sentir uma certa curiosidade em relação a esta rapariga.
- Desculpa – falei eu – não percebi que estavas aqui.
Então foi a vez dela de me olhar espantada.
- O que foi? – Perguntei eu.
- Não vais entrar em histeria nem ficar com um olhar doido e confuso, nem alucinar por me veres – eu, a tua cópia – à tua frente?
- Não. Mas devia fazer isso? – Perguntei eu, rindo-me. Não sei o que se passava, mas aquela rapariga devia de possuir um dom de pôr as pessoas à vontade. Sentia-me tão bem perto dela, como se a conhecesse desde sempre.
Voltei a fixar o olhar no dela e ela agora observava-me ainda mais estupefacta. Eu não disse nada e desviando o olhar, concentrei-me de novo nos meus pés a chapinhar na água do riacho.
De repente, outros pés se juntaram perto dos meus e eu percebi que eram os dela. E para meu grande espanto, ambas possuímos um sinal no tornozelo, exactamente no mesmo sítio.
Olhei-a de novo, completamente extasiada e deslumbrada. No rosto dela, apenas se via confusão. Parece que ela afinal não era assim tão optimista e que a minha primeira reacção a apanhou desprevenida.
- Mas quem és tu, rapariga? – perguntei eu.
- Eu? Eu sou alguém que toda a vida andou a teu lado, mesmo quando tu não me vias. Alguém que te entende, que te conhece e que sente tudo o que sentes. Alguém que te protege e te acalma, mesmo ao longe, sem nos vermos ou tocarmos. Alguém que tem o mesmo sangue que tu a correr nas veias…
Alguém que tinha um sangue igual ao meu a correr-lhe nas veias, como assim? Como é que ela podia ter sangue igual ao meu a correr-lhe nas veias? Só se ela fosse… Oh meu Deus! Ela era a minha irmã gémea! Então entendi. Ao princípio nem me dei ao trabalho de perceber quem ela era e o porquê de ser tão parecida comigo, mas agora tudo fazia muito mais sentido. Eu era adoptada e quando comecei a crescer, os meus pais adoptivos – pais, para todos os efeitos – começaram-me a falar que eu tinha uma irmã, só que eles não tinham conseguido ficar com ela. Ao princípio, revoltei-me, chamei-lhes nomes, rabujei, achei uma injustiça o que fizeram. Separarem-me da minha irmã, isso não se fazia!
E esta rapariga que neste momento se encontrava à minha frente era a minha irmã gémea, aquela que eu sonhara ter e que era real.
As lágrimas vieram-me aos olhos e virando-me, tentei abraça-la.
- Ash, acorda minha querida, está na hora! - A minha mãe acordou-me para mais um dia de aulas. Olhei confusa para o despertador, percebendo que estava atrasada, mas isso não foi suficiente para me despertar completamente. Vagarosamente, fui até à casa de banho e olhando o meu aspecto sonolento, de novo me veio à ideia a imagem daquela rapariga, da minha irmã gémea que não consegui abraçar. Era tão frustrante, ela devia de ser real.
Ao regressar ao quarto, de mau humor para me ir vestir, olhei pela janela do quarto da minha mãe e com o coração a mil, percebi que lá fora se encontrava a minha floresta. A floresta dos meus sonhos, onde provavelmente se encontrava a minha irmã.
Vesti-me em tempo recorde e correndo escadas abaixo, pegando apenas numa maçã, atravessei a porta e corri desalmadamente para a floresta.
Ao embrenhar-me nela de novo fiquei sem respiração com o tamanho daquela beleza. A floresta ainda apresentava uma beleza mais estonteante e irreal do que a do meu sonho e rapidamente me senti de novo dentro da cena que se passou nessa noite, com a pequena diferença que agora me encontrava vestida com jeans, ténis e uma t-shirt.
Corri, não apenas por correr, mas para encontrar alguém que sempre desejei tanto. Sabia que a minha irmã tinha de estar ali, ela não se ia embora sem mim. Afinal, ela sempre me andara a seguir, nunca me deixara. Estava certa de que ela me estaria a observar ao longe.
Não sei quanto tempo permaneci na floresta, a correr e à procura do riacho onde estaria a minha irmã. Não sabia se estava muito longe de casa. Perdi completamente a noção de tempo e espaço e tinha a certeza que andava às voltas no mesmo sítio.
Onde andaria ela? A minha irmã?
Sentei-me no chão, cansada - tão cansada -, e as lágrimas começaram a cair. Onde estava? Onde estava ela? Será que tudo aquilo não passara mesmo de um sonho? Será que eu estava assim tão doente? A minha irmã tinha de estar aqui! Eu avistara-a nessa noite, ela falara comigo e eu percebi o quanto ela era igual a mim, o quanto ela me amava e protegia, mesmo ao longe. Ela não me podia deixar agora, de novo.
Fechei os olhos e, quando os voltei a abrir, vi alguém a acenar-me lá no fundo. De longe, apenas se notava uma cascata de longos cabelos negros e eu rapidamente percebi quem era. Corri, sem sentir cansaço, apenas para sentir o toque da minha irmã. Não quis saber de mais nada, apenas dela. Da irmã que tinha partido há tão pouco tempo, mas que ontem voltou a visitar-me e que hoje se ia embora, comigo.
Aproximava-me cada vez mais e comecei a ver que ela me sorria. Eu também sorri, sentia-me tão feliz agora. Podia ser o fim, mas também o princípio.
Cheguei perto dela. Sem hesitar dei-lhe a mão e ela, olhando-me e sorrindo, agarrou na minha com força e ambas começámos a subir, onde uma luz branca e forte nos elevava do chão e nos impulsionava. Só tive tempo de olhar um pouco para baixo e ver que mesmo com o meu corpo moribundo estendido no chão, a floresta continuava com uma beleza irreal.
Finalmente, estava com a minha irmã e sabia que agora nada nem ninguém nos poderia separar. Esperara tantos anos por ela, sonhara tantas vezes com a sua presença e agora ela chegara à minha vida e eu iria partir com ela.
Sabia que ia causar muita dor aos meus pais, sabia que os meus amigos se iam perguntar o porquê de eu ter partido daquela forma mas algo que nunca ninguém irá entender é que dói quando não temos a nossa irmã ao nosso lado, quando sentimos desespero porque ela não está ali.
Por muito vivaça e risonha que eu tenha sido, a dor de não poder abraçar a minha irmã quando queria continuava bem presente no meu coração.
A vida é assim. Por vezes, sem qualquer razão possível aos olhos da sociedade, uma pessoa tem de partir para finalmente poder encontrar um pouco de paz e transmitir um pouco de paz aos outros.


Fim

C.
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